edição nº 001


janeiro
2010













imagens de m. almeida e sousa

CANÇÃO AMARGURADA


Mas o que quer isso dizer? – me perguntou a lua
utilizando-se de uma linguagem turva
em que todas as palavras se atropelavam umas sobre as outras
uma linguagem que me expulsava
mas que me deixava como um resíduo o sentido da pergunta
irrespondível

À noite
escavávamos a terra cavávamos um poço cavávamos um túnel
que nos levaria até Marte
E cavávamos a nossa ilusão de poder e a nossa força
dinamitávamos um cachorro
e éramos auto-suficientes em cada gesto que fazíamos
abençoados pelo papa e pelas árvores
numa ansiedade de sobrevivência

Quando amanhecia
não havia pergunta não havia mais nada
Tínhamos apenas as paredes
a lógica das paredes os quadros as janelas e a porta
a possibilidade de atravessar a porta chegando ao corredor
desembocando para os fundos
de atravessar o corredor e atingir a parte final da casa
que tinha sido construída num sonho
e simbolizava alguma coisa

O relento era enorme
e as amarguras também.



ODE COM O FARDO


Imensa liberdade nos concede o caos
Arranca de nossas cabeças o ridículo dos chapéus
espalha os nossos medos as nossas ambições o nosso ouro
pelos quatro cantos do mundo

Largas portas nos abre o caos
contanto que não durma em nossas soleiras
que não nos convide para um passeio
que permaneça contido entre dois pensamentos
entre duas linhas riscadas no chão.





CONTEMPLAÇÃO EM CÍRCULOS


I

Aos cuidados
do descuidado:

a tua vida que
poderia perfeitamente caber
na vida de um asno

Que estou dizendo?
Tua vontade de grandeza
numa tarde tão excessiva –
neste verão que durou uma eternidade
e em que suportaste o peso das recordações
(como um estivador
suportaria o peso de uma carga de peixes
levada para o centro
numa tarde de chuva)

Neste verão de incontáveis desastres
de asas de odores e fomes
e bocas desavisadas
que amanheceram
mais amargas.



II

A saída que tu procuras
não pode ser descrita
do mesmo modo como se descreve
uma sereia

não pode ser descrita
como um voo de pássaro

O voo que tu planejas
não pode ser solucionado
pela simples decifração do segredo das asas
pela descoberta do fogo
pela invenção da preguiça
por qualquer nome que comece
com a letra v

O que tu queres num dia como este
não cabe no círculo de uma palavra:
não cabe num pote
não cabe sequer num pensamento
(tal como o mar não caberia
na ideia desastrada
de bebê-lo).



III

Visitando lojas (que não carecem
de visitas) e percorrendo
galerias apenas para me sentir existindo
entre as coisas:

deste lado da vontade e do sonho
deste lado do possível
com um sentimento gordo das formas e dos volumes
como um lagarto a passear
sobre os espinhos
de um cacto

Para me sentir existindo
entre as horas e os minutos
e me sentir irmão do porco e da gralha
para me sentir irmão do vento
contemporâneo
de todos os desertos

Numa tarde em que
seria tão simples me equivocar (como certamente
me equivocarei) e olhar para o lado errado
(o que por certo acabarei fazendo)
de tudo o que de algum modo
é preciso interpretar como sendo uma tarde

Mas isso pouco importa
pelo menos não importa
por agora.



IV

O belo sol
o belo vento
o belo fugir das horas
a esfacelar-se em minutos

O belo existir do pombo
e o sol sobre os telhados
a bela poeira que os carros levantam
quando passam na estrada
sempre indo a algum lugar

E conceber tudo isso
como o filho mais novo tenta conceber a existência do pai
como o pequeno cérebro humano tenta conceber
a existência do sol
(caso qualquer coisa exista
que valha a pena conceber)

numa tarde
por uma tarde
numa bela tarde

em que tudo se resume
em esperar.



V

Sem qualquer esforço das mãos
chega-se rapidamente ao absurdo

Sem qualquer necessidade de saltar
cai-se facilmente para o não-sentido

para o que dorme no fundo do sentido
e de todas as inúteis noções

que nos esforçamos para angariar
num artefato decente

de realidade (que nos assombram
em nossos sonhos noturnos)

Sem qualquer esforço dos músculos
chega-se facilmente ao desastre.



VI

As palavras saltam como coelhos
de duas bocas mais desertas
E os pensamentos saltam
como fogos de artifício
tentando apreender a justiça
de um mundo que supõem irreal

As visões da mente se embaralham
se misturam se dissolvem em grãos
de não-sentido (cada vez menores):
e cada qual mais pequeno
numa tentativa de existir na palavra
(eis o seu truque mais impressionante)

Que estamos dizendo?
As palavras saltam como galinhas
assustadas ou pombos
quando o estampido de um canhão
irrompe em plena tarde deserta
arrebentando o silêncio com o seu balão de nada –
sem qualquer interesse pela tarde

(E no entanto a sua melhor parte
o seu melhor sorriso
e o que nela acontece de melhor)



VII

Letra cadafalso brancura
pudéssemos reunir tudo isso numa só palavra
ou reunir numa só palavra
duas coisas que não se podem reunir num pensamento

eis o desejo dos tristes
eis a vitória maior

a vida útil do lagarto
a falta de jeito do gramado
o pênis da santidade.



VIII

E a vós, meus caros,
não há nada que eu não vos possa negar
não há nada que eu não vos possa oferecer
na dança alegre de uma negação

Enquanto existirem esperas
enquanto existir o desejo do ar
e a lubricidade das águas
e a ferocidade dos ventos
enquanto existir o que quer que seja
a que se dê um nome
e então não haverá nada que eu não possa dizer
que me é perfeitamente possível negá-lo
(o que quer que isso queira dizer)

Sem significado esta manhã
sem qualquer sentido de continuidade para esta hora
e o voo deste pássaro sem qualquer necessidade
sem qualquer urgência de estar ali
e ser qualquer

Não há nada que eu não possa negar.



IX

Ter pais apenas para consumo próprio
e fabricar expectativas
como quem fabrica sapatos:
eis uma orla de mar com sua praia
e esta esperança de que do fundo do horizonte
salte um navio

Ter esta boca este contrato
esta vontade de repouso
que não provém da necessidade
que apenas aparece no vento
um som
Ter este bilhete no bolso
e este compromisso marcado com um cego
e esta esperança de coisa nenhuma
que o horizonte no entanto realiza

Ter esta vontade de triunfo
que, sempre decepcionada, só se realiza no repouso
mas não haver possibilidade de repouso
a não ser que se tenha uma casa
a não ser que se tenha uma pátria
(fosse a hora propícia para isso)
a não ser que se tenha uma sarjeta



X

Deste lado da vontade, dizia,
onde se sufocam os sonhos
onde morrem afogados os delírios
num mar turbulento de possibilidades

Resistir sobretudo à tentação
do que se desdobra no infinito
(mas o que é que não se desdobra no infinito?
o que é – em maio – que não se desdobra
multiplicando-se até o infinito?)

Ficar em casa como num ninho
e evitar as aventuras do sol
a entediar-se com o pensamento comprido
de que o tempo se desdobra no infinito
(de que todas as horas se repartem em instantes
e de que viver todos os instantes entedia)

Que sabemos? Resistir simplesmente
ao que quer que seja que esteja lá
para que resistamos:
restos de comida sobre uma mesa
cacos da xícara que se quebrou

No mesmo instante
no mesmo tempo
na mesma eternidade

Resistir a tudo isso também.



XI

No círculo de uma aroeira,
dançando uma valsa qualquer:
como se dança contra o vento,
como se baila o que não se quer.

Perdida a luta contra o tempo
mas satisfeito de haver o verão –
e pouco importando o que se diga
de tão estranha situação.

No círculo de alguma estrela
ou quase em véspera de algum mar
como quem dança para Apolo
como quem vai se casar.

Ali, a cumprir o movimento
perdidas a direção e a rota
numa alegria de asa em fuga
num clima outonal de bancarrota.

9/12-5-2009





apartado 2065
2750 cascais
portugal


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