- és poeta
perguntaste
- sou plagiador
respondi
… plagiei todos os poetas que li
e
naveguei o único poema que a(ssa)ssinei
um poema-cavalo branco que galopa as minhas veias
que ensaia estupendos saltos-precipícios
um poema-sexo-lamina-de-duas-faces
um poema-punheta
um poema-em-fuga
(foge todas as noites da minha cama para foder com
outros)
- és poeta
perguntaste
e eu, esquecido de todas as lembranças, assolado pelas
consternações do
mapa-múndi, encalhado nas ruas de barcelona, sem música e
sem
geografia, sem ir à horta onde as raízes pensam e o vinho
escorre por
entre fábulas de almanaque… eu que não existo.
mesmo antes de estar morto, não existo.
só disse
- tu… há muito que dormes comigo, na minha cama. tudo
começou muito antes de te conhecer.
muito antes de te conhecer
muito antes de te conhecer
muito antes de te conhecer
muito antes de te conhecer
muito antes de te conhecer
fui
surpreendido pela arquitectura do teu corpo-prazer-ócio.
o prazer e o ócio
o prazer e o ócio
o prazer e o ócio
o prazer e o ócio
o prazer e o ócio
que ainda me
mantém vivo
- és poeta
perguntaste
e eu…
só disse
- não prolonguemos as civilizações mecânicas…
a obscuridade retrocede e o ciclo das estações em salas climatizadas…
a noite e o verão perdem o seu encanto e o
romper da alba está a desaparecer.
já não há espaço para o sonho.
quero descansar nas ruínas do império
enamorar-me do rio que as atravessa
casar com ele
e
passearmo-nos por entre as velhas pedras
os nossos véus de noivado (negros) serão suportados por
dois adolescentes
ele de marinheiro (como gosto)
ela desnuda (como convém)
sou, todo eu, um plágio. uma janela aberta por onde transparecem milhares de imagens roubadas
premeditadamente



