“Um dia seremos salvos por uma palavra”
Diodoro, santo não reconhecido pelo cristianismo oficial
As palavras não caem no vazio
diz no Zohar
nem dele chegam até nós
As palavras crescem umas vezes na amargura outras na indiferença
outras ainda no reboliço das horas
as palavras afeiçoam-se alegremente como um brinquedo de madeira
como uma iguaria que tanto tempo se aguardou
sob uma latada, na manhã ou na noitinha nascente.
As palavras sabem tudo ou então o que inda é melhor
nada sabem e buscam o seu lugar entre os objectos da casa
num recanto do contentamento
Uma vez pensei
em qual seria a palavra mais bela, a que de repente criaria
para este aquele um momento de completa serenidade
um hálito fortuito de alegria
ou simplesmente um minuto de angústia
- aquela que não punge, que é recordação
ou apenas realidade.
A palavra roseiral, que em pequeno ouvi
e que sempre me acalenta
a palavra horizonte, que nos intriga e que tem por detrás
tantos sonhos humanos de aventura e de crime
A palavra silhueta, a palavra caminho
e essoutra – madrugada – que abre o nosso coração
e o torna a fechar depois.
E tantas, tantas outras que nos rondam os dias que temos
e tivemos
Por exemplo a palavra que nos cai em cima como uma árvore abatida
- pobreza – essa palavra tão infeliz, tão só. Tão perturbada.
Palavras em espanhol, com seu guiso e suas lonjuras, palavras
em francês, em romeno com o seu passo
balançado como uma dança
palavras em islandês e quíchua, essa improvável levitação.
Mas a mais bela palavra sou eu que a tenho
e a trago sempre comigo: nos ouvidos, na memória,
no coração e nos pulmões
Entre as mãos e sobre um joelho, no cotovelo
e num bolso da camisa
e por ela serei salvo. Por ela cheguei ao meu país
onde o mistério se acoita.
Essa palavra
fui eu que a descobri. E é inteiramente minha.
Qual foi e qual será
qual era? Quem a conhece?
Quem a descobrir
que ma diga ou então, não podendo
que me a escreva, numa folha
amorável que me mandar
ou numa pedra
que me atirar
envolta num papel com ela escrita
em qualquer dia que calhe.
in "O armário de Midas"
O
PANELEIRO
Digam, vá: o panasca. A sorte que ditou
a minha trajectória não ofende o percurso
da pura anatomia das minhas partes
altas. Volutas de ADN
murmúrios roucos do anoitecer da carne
- a mão e o dedo preparados
e a relação da boca em todas
as situações incontornadas - me sustentam.
Panasca é pois meu nome
- a exacta honra de no cu levar,
que não me quero gay ou pisaflores
e muito menos veado ou maricon. Panasca
- sagrado nome que aos pátrios sítios
me devolve em ternura
na galhardia duma história inteira
de enrabados heróis.
Conheço os continentes, sei em que ilhas
e em que planuras a moca se transforma
em rios mares de desejos e de amores
por trás da descoberta.
Conheço o doce e amargo de ser puta
de marinheiros soldados motoristas
( e de outros que não digo).
Pois panasca é que sou
até ao fim da vida até ao fim do sonho.
E assim me ergo soberano
tão íntegro e sereno
fraterno entesoado
- ante vós que não ides p’ró caralho.
O
CABRÃO
Por mim me inclino com minha fronte
imaterial
flores que em volta me coroam até
ao ombro
até à simples alma de uma razão rasteira
de me saber cornudo, de topar
os rastos duma foda alheia
que o século me deu decifrada e cheia
de risadas de gozo.
Por essas ruas vou
cabelo ao vento
que o chapéu já me pesa na galhada testa
e vejo as árvores, os lugares de espanto
e a raiva vicejada no escuro dum quarto
De punhetas me tenho de enfeitar
pois já cona não tenho (ou tenho em falso).
Aos deuses eu empresto
meu funesto perfil
p’ra que saibam tecer
seus próprios fastos.
E se touro já sou
minotauro me quero
para vingar a sorte
de um fodido destino
in "Erotica Lexicon"



