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Trinta anos de Mandrágora, o que é Mandrágora?
- Mais do que um projecto estético, trata-se
de um colectivo informal que jamais teve como proposta a
produção de eventos dramáticos ou plásticos
de carácter comercial. Trata-se, mais concretamente, de um
espaço de experimentação/acção em
processo e progresso permanentes.
- No entanto, foram apresentados a público vários
projectos...
- O que é, obviamente, não apenas
natural como inevitável! Depois de construirmos uma
acção em “laboratório”, fica a questão: -
Mostra-se ou não?...
Mas, de facto, o objecto é sempre o resultado de uma
experiência, de experiências do colectivo, da sua
criatividade.
- Há uma fórmula definida nesse processo criativo?
- Não. Muitas vezes limitamo-nos a saltar de
e no vazio... Como dizia, num poema, o Cesariny - “acamaradamos” e, num
estalar de dedos vem uma ideia - se viável é,
prosseguimos.
O Mário (Cesariny), aliás, esteve sempre pronto a
colaborar e a apoiar-nos e fê-lo por diversas vezes, tal como
Cruzeiro Seixas e outros maiores do nosso surrealismo, a quem muito
agradecemos o apreço em que tiveram este “movimento”.
Mas, retomando: é desta forma que encetamos uma fase em que tudo
é brando, estranho, difuso. Então, quando tomamos
consciência das “imagens” criadas, apropriando-nos do seu
sentido, o que parecia o caos converte-se em acto.
As nossas acções, podemos dizê-lo, rompem de um
estado frequentemente ambíguo. E isso permite, a quem
está de fora e nos vê, todo o tipo de
interpretações.
Apostamos em desafios, no desafio da metáfora do mundo da arte
contemporânea.
- Contra-cultura, como se falava nos anos 60?
- A contra-cultura foi deglutida e aproveitada e
“dejectada” pelos media e pelo sistema vigente em geral. O
“espectáculo do quotidiano” desempenha um papel muito
próximo da antropofagia... Devora tudo.
Devora-nos.
- Daí as dificuldades de um projecto experimental com estas
características em ser apoiado pelas
instituições?!...
- Mandrágora foi já apoiada por
instituições de grande prestígio na área da
cultura. Deste e do outro lado da fronteira. Além disso temos
consciência de que constituímos uma referência para
muitos projectos culturais, nacionais e estrangeiros - até
já “servimos” para teses universitárias de mestrado.
Se não somos apoiados com regularidade deve-se, quanto a
nós, a dois factores, a saber: em primeiro lugar, por nunca
termos querido sujeitar-nos à perda de uma real
independência; em segundo lugar, porque o diálogo
institucional está longe de fluir. Deparamos com muitas
barreiras, muitas reuniões, muita burocracia. Para além
de não termos vocação para pedintes...
Este nosso país depois de Abril, lamentamo-lo, nunca teve uma
política séria para a área da cultura, nem sequer
uma definição do que ela possa ser. Nenhum associativismo
cultural pode vingar neste deserto... falta-lhe o húmus para se
alimentar, para poder ganhar raízes. E é precisamente
aqui que reside a razão mais funda do fracasso de algumas
democracias, o insuficiente desenvolvimento de um tecido associativo ou
cooperativo, devido à permanente precariedade em que se
estabelecem e funcionam.
Não se entende, pois, porque “eles” não entendem...
- Uma Mandrágora com 30 anos...
- É, assim, uma Mandrágora nas mesmas
condições em que nasceu, mau grado tudo o que foi feito.
Sem espaço de trabalho, muitas vezes com reuniões
improvisadas à mesa de um restaurante (já não
há cafés onde se consiga fazê-lo), com “assembleias
gerais” onde calha, com um arquivo histórico de
incalculável valor disperso pelas casas dos associados...
- Mas há promessas…?
- De resolução? Nem por isso… Houve.
Houve muitas... Muitas promessas. A situação mais
caricata foi protagonizada pela Câmara Municipal de Cascais, vai
para alguns anos. Num dia, deram-nos uma chave de uma loja, no dia
seguinte pediram a chave de volta. Tinha havido um engano...
- Engano…?!
- Isso mesmo. A loja, propriedade do
município, havia já sido prometida, disseram-nos, a uma
associação de pais e encarregados de
educação de uma escola. Claro que uma
associação de pais tem mais volume de votos que uma
associação cultural, ou eventualmente um senhor ou
senhora da confiança partidária de quem gere os destinos
autárquicos. Vamos lá saber...
- Tudo o que foi referido ao longo desta entrevista daria um excelente
filme. Já pensaram em fazê-lo?
- Duvido de que nos dessem um subsídio.
Ainda nos arriscávamos a ganhar algum prémio de
comédia negra em Cannes e lá ficavam “eles” sem saber se
haveriam de nos aproveitar para o país “deles” ou esconder-nos
rápida e discretamente.
E longe de nós atrapalhar a vidinha seja de quem for…
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domador de sonhos
apartado 2065
2750 cascais
portugal
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