No período em que, na segunda metade do século passado, o Brasil esteve submetido a uma ditadura militar com a imposição de censura prévia às notícias dadas pela comunicação social, muitos jornais optaram por inserir receitas de cozinha nos locais onde deveriam figurar aquelas que haviam sido censuradas, dando assim conhecimento aos leitores de que algo tinha sido escondido do conhecimento público, no que constituiu uma forma sarcástica e eficaz de denunciar a situação que se vivia.
Mais de um quarto de século passado após o derrube da ditadura brasileira, em Portugal, origem do país que se prevê vir a ser um dos colossos económicos e culturais do século XXI, as receitas culinárias pululam por toda a comunicação social, o país descobriu a importância cultural da gastronomia e não há bicho-careta nem bicho-carpinteiro ou pedreiro que, para o ser, não se pronuncie ou dê palpites sobre ela e, em busca da glória eterna, procure ou aceite publicar um livro sobre cozinha (e se possível, um de histórias para crianças, as quais, neste sentido também foram optimizadas enquanto nicho manancial de promoção social e acrescentam ao retrato umas tintas de respeitabilidade institucional, com possibilidade de passagem ao distinto estatuto de colaborador do Plano Nacional de Leitura).
No meio de tudo isto, ganham ainda terreno os restaurantes de regimes alimentares alternativos, macrobióticos, ovo-lacto-vegetarianos, vegans… Todos eles criados por gente permeada pelas ideias de eco-sustentabilidade e de reciclagem, bem como as de combate às alterações climáticas. O que, aliás, se encontra em sintonia com as intenções propagandeadas pelo governo do Senhor engº José Sócrates e que nos coloca - a nós, pequeno país que a história recente tem ignorado e esquecido - de novo no lugar, que nos pertence de direito, do experimentalismo de vanguarda que conduzirá o planeta a uma Nova Era.
Poder-se-á arriscar, porém, que tudo isto indica apenas, afinal, que, em Portugal, a crise constitui uma ditadura que leva a que alguns cidadãos e a comunicação denunciem, pela enésima vez desde há, pelo menos, quatro séculos, uma censura subtil e velada? Ou que, mais perversamente do que durante a nossa ditadura, como alguns afirmam, a pratiquem? E, nesse caso, que sentido se poderá encontrar nessa censura? Freudiana, uma sublimação do pobretanas? Existencial, um esquecimento de si? Política, uma forma de distrair as atenções? Um recurso, forma de as empresas de comunicação social passarem por menos dificuldades orçamentais? Tudo ao mesmo tempo? Ou simplesmente um discreto apoio institucional ao reforço do tecido existente de pequenas empresas ao nível da restauração? Não o sabemos, mas, enquanto patriotas, duvidamos.
Assim, por todos estes motivos, decidimos, no nosso pequeno texto, escrito à pressa, associarmo-nos a este movimento verdadeiramente telúrico da sociedade portuguesa e colocarmos a nossa revista na rota do progresso e na senda do serviço público (ou vice-versa), fechando-a com uma receita culinária da nossa autoria, que busca uma síntese arrojada das duas tendências mencionadas: a tradicional e a das dietas alternativas, contribuindo, desta maneira, para o incremento de uma apelativa novidade turística abrangente de diferentes, ou antagónicas, concepções de vida, pela radicalização dos pressupostos de base de cada uma delas.

Com efeito, não podemos privilegiar moralmente o consumo de seres vegetais em relação aos seres animados, dado o simples facto de não possuírem sistema nervoso não ser suficiente para conferir, por isso, aos que deles se alimentam, maior legitimidade em retirar-lhes a vida para continuarem as suas; nem há notícia de qualquer revelação divina anunciadora, a tudo quanto é vivo, da determinação de que os seres vegetais estão cá para ser comidos e os restantes, não. Chegados a este impasse aporético, restar-nos-á reconhecer nos abutres os seres de maior e mais completa perfeição moral da natureza, em que os crentes deverão pôr os olhos como proveitoso modelo que Deus pôs diante deles para seu maior aperfeiçoamento espiritual e, para os que não professam qualquer religião, como precursores da futura humanidade. Aquelas aves, calvas e com menor índice de sex-appeal, alimentando-se unicamente dos despojos daqueles que terminaram os correspondentes ciclos de vida, verdadeiros recicladores naturais, apontam-nos o caminho a percorrer no que poderemos designar como o verdadeiro comércio justo no plano da sobrevivência.
No seguimento deste raciocínio, propomos, por tudo isto, que se inaugure o que denominaremos como cozinha dejectual, uma dieta digna de um verdadeiro ser humano, cidadão, por direito moral, deste planeta e que satisfaça as diferentes teorias e tradições quanto à alimentação. Nessa culinária, que marcará a aurora da humanidade nova - a humanidade moral, kantiana - utilizar-se-á exclusivamente os dejectos dos restantes seres vivos, com recurso a energias renováveis. Neles encontraremos à nossa disposição as proteínas animais, nos dos carnívoros; as fibras, nos dos herbívoros e frugívoros; na sua urina, sais minerais em estado puro. Tudo, evidentemente, recolhido a partir de seres em liberdade perfeita, plenos de energia integral. E, para aqueles que suspeitarão de qualquer propósito menos respeitoso das suas honestas convicções alimentares ou religiosas quando adiantamos esta nossa proposta, lembramos que os esquimós comem os excrementos das focas de que se alimentam, temperados com a gordura que delas retiram, como forma de suprirem as suas necessidades de fibras vegetais. Nesse aspecto, também aquele povo constitui, para o resto do mundo, um farol da futura e verdadeira civilização.
Concretizando o que atrás ficou dito, propomos a todos os que nos lêem um delicioso Bolo de Bosta, cuja receita, muito económica e de fácil preparação, transcrevemos de seguida:
Recolha-se um quilo de fezes barrosãs de boa qualidade, provenientes de animais que nunca tenham estado em estábulos, amasse-se com a ajuda de dois decilitros de urina de coelho e junte-se-lhe uma pitada de caganitas de cabra selvagem. Unte-se uma forma de barro com os dedos previamente mergulhados em fezes de porco-espinho e leve-se ao géiser durante cerca de trinta minutos. Sirva, enfeitado com caganitas de lebre.
Pensamos que, dado o empenho revelado em colocar o país na frente da investigação e das práticas tecnológicas de ponta, o primeiro exemplar deste bolo (que confessamos, não experienciámos) bem merece ser dado a provar, em primeiro lugar, ao nosso primeiro-ministro. Se lhe souber a merda, poderá, ao menos utilizá-lo para se divertir, em conjunto com os seus ministros, imitando o que é frequente ver-se nos filmes do mudo, atirando-o, em fatias à cara uns dos outros, que coitados!, pelo tanto que têm feito em prol de todos nós, bem o merecem.



